PATRÍCIA é jornalista e assina POETA. Eu sou ANGELA, Pedagoga e assino RAMALHO (o que não deixa de ter também a sua poesia). Fico pensando como seria divino assinar "Poeta" depois do nome. Até fiz uma poesia sobre isso! Esse blog é um espaço onde brinco com as palavras, fazendo aquilo que gosto. E o que eu gosto mesmo é de fazer poesias! Portanto, embora não seja PATRÍCIA, eu sou POETA!

sábado, 19 de julho de 2014

E A MORTE NÃO LHE FOI SÚBITA!


Em 18/10/2011 Rubem Alves escreveu o texto abaixo, desejando que a morte não lhe fosse súbita. Passaram-se dois anos e nove meses e hoje ele se foi. Na beleza simples da vida que ele relatou, está o seu mais lindo haicai! Vá em paz!!! 

SOBRE O MORRER:
"Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso. Mas a morte é o destino de todos nós" (Steve Jobs).

"Odeio a ideia de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Tremo ao pensar que o jaguar negro possa estar à espreita na próxima esquina.  Não quero que seja súbita. Quero tempo para escrever o meu haicai. 

Mallarmé tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só. Achei-o louco. Depois compreendi. Para escrever um livro assim, de uma palavra só, seria preciso ter-se tornado sábio, infinitamente sábio. Tão sábio que soubesse qual é a última palavra, aquela que permanece solitária depois que todas as outras se calaram. Mas isso é coisa que só a morte ensina. Mallarmé certamente era seu discípulo. 

O último haicai é isto: o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai. Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo, mosca agitada na teia das medíocres, mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso. Os não essenciais se despregam do corpo, como escamas inúteis.

A morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável... Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. E certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim...

Curioso que a morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem sabe sobre a morte são os vivos. A morte, ao contrário, só fala sobre a vida, e depois do seu olhar tudo fica com aquele ar de "ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se" (Cecília Meireles). E ela nos faz sempre a mesma pergunta: "Afinal, que é que você está esperando?" Como dizia o bruxo D. Juan ao seu aprendiz: "A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir que tudo vai de mal a pior e que você está a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua morte e pergunte-lhe se isso é verdade. Sua morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque... Sua morte o encarará e lhe dirá: Ainda não o toquei..."

E o feiticeiro conclui: "Um de nós tem de mudar, e rápido. Um de nós tem de aprender que a morte é caçadora, e está sempre à nossa esquerda. Um de nós tem de aceitar o conselho da morte e abandonar a maldita mesquinharia que acompanha os homens que vivem  suas vidas como se a morte não os fosse tocar nunca".

As vezes ela chega perto demais, o susto é infinito, e até deixa no corpo marcas de sua passagem. Mas se tivermos coragem para a olharmos de frente é certo que ficaremos sábios e a vida ganhará simplicidade e a beleza de um haicai." 

(Rubem Alves, em uma de suas últimas crônicas à Folha de São Paulo - 18/10/2011). 
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