PATRÍCIA é jornalista e assina POETA. Eu sou ANGELA, Pedagoga e assino RAMALHO (o que não deixa de ter também a sua poesia). Fico pensando como seria divino assinar "Poeta" depois do nome. Até fiz uma poesia sobre isso! Esse blog é um espaço onde brinco com as palavras, fazendo aquilo que gosto. E o que eu gosto mesmo é de fazer poesias! Portanto, embora não seja PATRÍCIA, eu sou POETA!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS




Certas pessoas me perguntam se percebo influências desse ou daquele escritor nas coisas que escrevo. A poesia na minha vida foi marcada, desde a infância, pela presença de meu pai, um paraibano da Serra de Teixeira (PB), defensor da cultura nordestina, que era repentista, lia literatura de cordel e fazia versos em [1] martelo agalopado como ninguém! Cresci vendo meu pai compor seus versos de improviso e admirava a facilidade com que as palavras vinham-lhe à mente, produzindo na oralidade (e somente na oralidade) cordéis de riquíssimo conteúdo. Essa foi minha primeira e mais forte influência. Abaixo meu primeiro cordel. 
NA BALANÇA DA VERDADE, DEUS SABE QUEM PESA MAIS (cordel)

            Ficou muito complicado
Entrar para a eternidade
            Tudo tem que ser pesado
            Na balança da verdade
Nossos erros e acertos,
            Nossas faltas, nossos ais
            E prá quem pecou demais
            Ainda tem esperança
Pois nessa tal de balança
Deus sabe quem pesa mais.

Por volta dos meus 17-18 anos a Editora Abril lançou a coleção “Os Imortais da Literatura Brasileira” e a cada semana eu adquiria nas bancas um exemplar. Levou tempo, mas completei toda a coleção e pude ler as obras-primas dos grandes mestres da literatura nacional, dos quais destaco Aluísio de Azevedo, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Cláudio Manuel da Costa, Euclides da Cunha, Franklin Távora, Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Lima Barreto e Machado de Assis.
Quando iniciei o Curso Técnico de Redação literariamente fui apresentada pela Professora Alice Áurea Penteado Martha aos grandes mestres: Drummond, Vinícius, Fernando Pessoa e Pablo Neruda. Estes a partir de então, tornaram-se os meus preferidos. Em três anos conclui o curso e acrescentei à lista inicial: Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Mário Quintana, Manuel Bandeira, Moacyr Scliar, Fernando Sabino, Luiz Fernando Veríssimo, Paulo Mendes Campos, Ligia Fagundes Telles e Jorge Amado (não sei se necessariamente nessa ordem).
Li ainda Cora Coralina e os paranaenses Helena Kolody e Paulo Leminski.  Li Marina Colasanti e seu talentoso marido Affonso Romano de Santana. Mais recentemente li Lia Luft e gostei. Li o amigo Oscar Nakasato, maravilhoso! Tem ainda muita coisa boa na minha estante que não consegui ler. É impossível trabalhar 40 horas, dar conta de uma série de demandas de trabalho que trago para casa, escrever o tanto que escrevo e ainda ler. O dia tem apenas 24 horas. Eu precisaria de mais!
Penso que devo ter influências desse povo todo em meus trabalhos, mas penso também que agreguei características minhas em todos eles. Quando lemos muito um autor é natural adquirirmos características de sua escrita, mas quando lemos vários autores, é muito difícil saber qual deles mais te influenciou. Analisando o que escrevo hoje, eu vejo algumas influências sim.  Por exemplo, a influência de gênero. Eu escrevo muito mais poesias do que crônicas ou contos. Exploro nas poesias temas variados, mas o tema predominante é o amor. Nelas o romantismo de certos textos me faz lembrar o poetinha, que também exerce influência em alguns de meus sonetos. 

QUEM?

Quem de bom grado merecerá ser amado?
            Quem me falará de amor, sem dia e hora?
            Quem de vós ficará e quem irá embora?
            Quem me será caro, quem será lembrado?

            Quem de vós inspirará meus versos?

Quem me fará cantar em pleno dia?
            Quem fará carícias cheias de ousadia?
            Ou falará de amor de modos tão diversos?

            Quem me dirá frases de amor tão belas?
            Quem me fará sentir o melhor sentimento?
            Quem mudará o curso dessa história?

            Como acontece em cenas de novelas,
            O final tem sempre seu melhor momento,
            Que é imprevisível, mas cheio de glória. 

Quando falo da natureza e da espiritualidade, Helena Kolody e seus haicais me inspiram e me levam a compor versos como esses:

"Deus nos deu uma estrela.
            Hoje ela mora no céu.
            Na poesia, posso vê-la."
           
Leminski me inquieta e me desafia a escrever coisas breves, com simplicidade mas ao mesmo tempo com inteligência e humor.  Assim tentei me expressar sobre os meus cabelos:
“Eu me descabelo,
Com meu cabelo
Nada belo.
Mas mesmo assim,
Gosto de mim”.

            A poesia concreta aparece em alguns momentos no que escrevo. Mas considero que sou mais eu na prosa poética. Se vivo fosse, meu pai discordaria de grande parte do que escrevo. Quando fiz essa poesia ele já havia falecido, o que me fez imaginar a cena: eu e meu pai, discutindo poesia.

POESIA SEM RIMA

Meu pai:
            Poesia não tem que ter rima.
            Poesia é poesia. Tem que ter sentimento.

            Não.
            Sem rima não é poesia, é prosa.

            Não, meu pai.
            É poesia moderna, contemporânea.

            Mas sem rima
            Não presta.

            Nada que é moderno presta.
            Porque a poesia prestaria?

            Ah, conflito de gerações...

            Fico eu, com a moderna.
            Meu pai com a sua rima.

            E quem é que vai negar
            Que as duas não são poesia?

Importante ressaltar aqui que considero "ler" o ato de adquirir o livro impresso e literalmente "devorá-lo" da primeira à última página. Não considero leitura (embora o seja!) o fato de entrar esporadicamente em sites de escritores contemporâneos, renomados ou não e bisbilhotar parte de seu conteúdo. Faço isso com frequência. Leio fragmentos de poemas (ou leio todo o texto, se tenho tempo). Mas essa visitinha informal para mim conta como uma introdução na obra daquele autor, não como leitura.  Normalmente faço isso com o escritor da moda. Vou lá e leio o que ele faz. Se gosto compro. Se não gosto, fica só na visitinha básica. A internet existe para isso. Facilita para conhecer o que as pessoas estão escrevendo. E muitas vezes, tenho agradáveis surpresas de onde menos esperava!
   



[1] Martelo agalopado: estrofe de dez versos de dez sílabas poéticas, marcados por acentuação tônica nas terceira, sexta e décima sílabas.
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